O fundador como guardião da cultura

Fundador como guardião da cultura, ilustrado por uma marca de semente que se transforma em hábitos organizacionais compartilhados

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Em uma empresa jovem, a cultura não é algo que o RH desenha. É algo que o fundador faz, repetidamente e quase sempre sem perceber: sobre o que ele pergunta nas reuniões, quem ele contrata, o que faz quando um cliente está furioso, o que deixa passar. O fundador atua como guardião da cultura, isto é, a pessoa por meio da qual as crenças e os hábitos iniciais de uma empresa entram na organização e são transmitidos a todos os que chegam depois.

Dois conjuntos de pesquisas explicam como isso funciona. O primeiro é o trabalho de Edgar Schein sobre cultura organizacional e liderança, que trata os fundadores como a principal fonte da cultura de uma empresa. O segundo é o Stanford Project on Emerging Companies (SPEC), que acompanhou jovens empresas do Vale do Silício e constatou que a forma como os fundadores estruturaram o emprego no início moldou o desempenho dessas empresas.

Este artigo percorre os dois e depois aborda a questão mais difícil: o que acontece com a cultura quando o fundador se afasta, e como as organizações tentam registrar por escrito o que antes vivia nos hábitos de uma única pessoa. Para o contexto mais amplo, comece por o que é uma empresa liderada pelo fundador.

A tese de Schein: a cultura começa nos fundadores

Edgar Schein passou a carreira na MIT Sloan estudando como os grupos desenvolvem formas compartilhadas de pensar. Seu argumento central sobre os fundadores é simples. Os fundadores trazem as próprias crenças, valores e premissas para um novo grupo. Se a organização tem sucesso, essas ideias deixam de ser opiniões de uma pessoa e passam a ser tidas como óbvias. Nesse ponto, existe uma cultura.

Em Organizational Culture and Leadership (5ª edição, Wiley, 2016), o argumento de Schein é este: os fundadores aplicam ao grupo as próprias crenças, valores, premissas e regras de comportamento, e, se a organização tem sucesso, elas passam a ser tidas como óbvias e nasce uma cultura. No mesmo livro, Schein sustenta que os fundadores costumam ter grande impacto sobre como o grupo define e resolve, pela primeira vez, dois problemas básicos: adaptar-se ao mundo externo e integrar as pessoas internamente.

Dois detalhes importam aqui. Primeiro, o sucesso é o filtro. Os hábitos de um fundador só se solidificam em cultura se a empresa funciona. Uma empresa que fracassou tem muito comportamento de fundador e nenhuma cultura que valha o estudo. Segundo, o processo é em grande parte inconsciente. Schein descreve fundadores que muitas vezes nem percebem que estão lidando com dinâmicas de grupo. Eles acham que estão apenas tocando o negócio.

Pesquisadores que testaram a ideia em outros contextos descrevem a mesma sequência. Em um artigo da Wayne State University, Embedding Leader Traits, Tomas Giberson resume a visão de Schein assim: a formação da cultura começa com as decisões dos fundadores, que incorporam suas premissas por meio de mecanismos primários, como aquilo a que dão atenção e os critérios que usam para decidir. Os fundadores então reforçam essas premissas por meio de mecanismos secundários, como as estruturas, os sistemas e os processos que montam. Giberson acrescenta que os fundadores tendem a escolher um grupo inicial com traços, valores e premissas parecidos, o que fixa o padrão.

Os três níveis da cultura

Antes de ver como os fundadores incorporam a cultura, ajuda esclarecer o que "cultura" significa no modelo de Schein. Ele descreve três níveis, ordenados pela visibilidade. A visão geral do modelo feita pela Culture Partners os resume como artefatos e comportamentos, valores declarados e premissas subjacentes.

Os três níveis de cultura de Schein representados como artefatos visíveis, valores declarados e raízes subjacentes

Nível O que é Exemplo em empresa liderada pelo fundador
Artefatos Estruturas visíveis, comportamentos, linguagem, vestuário, layout do escritório, rituais Um escritório aberto, um ritual de demo às sextas-feiras, o apelido que todos usam para o primeiro produto
Valores declarados O que a organização diz acreditar: princípios declarados, declarações de missão, filosofias oficiais Uma página de valores que diz "o cliente em primeiro lugar" ou "agir rápido"
Premissas básicas Crenças tidas como óbvias, quase sempre inconscientes, sobre como as coisas realmente funcionam "Ninguém lança nada sem o aval do fundador", seja o que for que a página de valores diga

Os níveis importam porque o fundador costuma escrever o do meio e viver o de baixo. Um fundador pode pôr na parede "confiamos nas nossas pessoas" (valor declarado) e ao mesmo tempo reescrever pessoalmente todas as propostas para clientes (comportamento que ensina uma premissa básica). Os funcionários acreditam no que veem, não no que leem. Quando os níveis divergem, o mais profundo vence.

Como os fundadores incorporam a cultura: os seis mecanismos primários

O capítulo de Schein sobre como os líderes incorporam e transmitem a cultura lista seis mecanismos primários de incorporação. São os comportamentos do dia a dia que dizem às pessoas o que realmente importa.

Seis ferramentas representam os comportamentos que os fundadores usam para incorporar a cultura: atenção, crises, recursos, exemplo, recompensas e contratação

Mecanismo primário Como aparece para um fundador
O que os líderes acompanham, medem e controlam com regularidade As perguntas que o fundador faz em toda reunião, os dashboards que ele consulta, os assuntos que ganham espaço
Como os líderes reagem a incidentes críticos e a crises organizacionais Se um prazo perdido, um cliente perdido ou uma falha de segurança provoca culpa, uma análise posterior (post-mortem) ou um dar de ombros
Como os líderes alocam recursos Para onde vão o dinheiro e o tempo escassos: engenharia em vez de vendas, ou o contrário, e o que é cortado primeiro em um trimestre ruim
Modelagem deliberada de papéis, ensino e coaching Trabalhar nos fins de semana, responder pessoalmente aos tickets de suporte ou tirar folga de forma visível
Como os líderes alocam recompensas e status Quem é promovido, elogiado em público ou recebe o projeto interessante
Como os líderes recrutam, selecionam, promovem e "excomungam" Quem é contratado, quem avança e quem é afastado (a palavra do próprio Schein é "excommunicate")

O último mecanismo merece atenção extra. Contratar é a ferramenta cultural mais poderosa do fundador, porque decide quem carregará a cultura mais tarde, sem o fundador na sala. O resumo de Giberson sobre a ideia de atração, seleção e atrito (attraction-selection-attrition) aponta na mesma direção: os fundadores tendem a escolher pessoas parecidas com eles, o que mantém a cultura coerente. Também pode mantê-la estreita.

Os seis mecanismos secundários

Schein combina a lista primária com mecanismos secundários de reforço e estabilização, apresentados junto com ela no mesmo capítulo:

  • Desenho e estrutura organizacional
  • Sistemas e procedimentos organizacionais
  • Ritos e rituais
  • Desenho do espaço físico, fachadas e edifícios
  • Histórias sobre eventos e pessoas importantes
  • Declarações formais de filosofia organizacional, credos e estatutos

Em uma empresa jovem, esses mecanismos em geral ecoam o que o fundador já faz. Schein acrescenta que, em uma organização madura e estável, os mecanismos secundários podem se tornar primários, porque as estruturas e os sistemas passam a carregar a cultura no lugar de uma pessoa. Essa mudança é o que permite à cultura de uma empresa liderada pelo fundador sobreviver ao crescimento.

Os blueprints do Stanford SPEC

O trabalho de Schein é conceitual e baseado em estudos de caso. O Stanford Project on Emerging Companies traz dados. Segundo o texto da MIT Sloan Management Review, o SPEC acompanha 167 jovens empresas de alta tecnologia no Vale do Silício desde 1994, um projeto iniciado por James Baron e Michael Hannan, de Stanford.

Os pesquisadores constataram que os fundadores chegavam com modelos mentais bastante claros de como o emprego deveria funcionar, que chamaram de blueprints. Os modelos diferem no que prende as pessoas à empresa, em como o trabalho é controlado e em como as pessoas são selecionadas. Segundo o mesmo texto, os cinco blueprints e a parcela das 167 empresas que se encaixava em cada um eram:

Blueprint Ideia central Parcela da amostra
Engenharia Atrair pessoas com trabalho desafiador, confiar no controle informal entre pares, contratar por habilidades específicas 31% (52 empresas)
Estrela Contratar por potencial de longo prazo, esperar um compromisso profissional com a excelência, pouco controle formal 8% (13)
Comprometimento Fortes vínculos emocionais com a empresa, controle informal entre pares, ênfase na adequação cultural 7% (12)
Burocracia Procedimentos formais de controle, trabalho desafiador, contratação por habilidades específicas 5% (8)
Autocracia Motivar principalmente por recompensas financeiras, supervisão pessoal próxima 3% (5)

Outros 46% (77 empresas) diferiam dos cinco em pelo menos uma dimensão, de modo que os blueprints são um vocabulário, não uma máquina completa de classificação. A amostra é de jovens empresas de alta tecnologia, e o estudo mede modelos de emprego, não a cultura diretamente.

Duas conclusões se ligam diretamente à questão da cultura. O artigo de Baron e Hannan na California Management Review relata que os blueprints iniciais dos fundadores influenciaram o crescimento da sobrecarga administrativa, a rotatividade de pessoal e o resultado final. E relata que as empresas que mudaram de blueprint pagaram um preço alto, em maior rotatividade e pior desempenho organizacional. Os autores leem isso como evidência de que construir a organização de forma deliberada e investir em práticas de RH de alto comprometimento compensa, e de que trocar de modelo de recursos humanos desestabiliza.

Quanto ao desempenho, o texto da Sloan Review relata que o modelo de comprometimento acabou sendo o melhor preditor de sucesso em IPO, embora seja normalmente associado a grandes empresas de setores estáveis e os observadores esperassem que as empresas de engenharia e de estrelas dominassem.

O que acontece quando o fundador se afasta

A cultura não desaparece quando o fundador deixa as decisões do dia a dia, mas muda de forma. Os capítulos posteriores de Schein descrevem várias pressões que acompanham o crescimento e a idade:

  • O contato presencial e o conhecimento pessoal se perdem.
  • Os métodos de coordenação e de medição mudam.
  • A pressão por padronização aumenta.
  • Formam-se subculturas por linhas funcionais, geográficas e de produto.
  • Fica mais difícil manter uma cultura comum.

Schein também trata a transição para a meia-idade da empresa como um ponto em que a sucessão se torna um problema, e observa que um novo CEO em uma empresa em amadurecimento tem pouca margem para mudar as premissas básicas da cultura. O resumo destaca seu caso do fundador da Digital Equipment Corporation, Ken Olsen, cujas premissas de abertura e de debate funcionaram bem e depois, segundo Schein, se tornaram disfuncionais no fim dos anos 1990 porque permaneceram inalteradas. A cultura de um fundador pode sobreviver à própria utilidade justamente porque foi tão bem-sucedida.

Schein também descreve a mudança cultural por meio da entrada de pessoas de fora, e observa que, em uma organização madura, a cultura pode refletir o trabalho de vários líderes ao longo de um longo período, e não apenas do fundador original. Em outras palavras, a marca do fundador passa a ser uma camada entre várias.

Para as organizações, isso cria três situações comuns:

  1. Os hábitos do fundador permanecem, mas o fundador não. Os novos gestores continuam reproduzindo comportamentos antigos sem saber por quê. Isso funciona até as condições mudarem.
  2. Os hábitos do fundador são abandonados. A cultura se desloca para o que os novos líderes fazem no lugar, e alguns dos pontos fortes originais podem desaparecer.
  3. O fundador fica e a cultura depende dele. É o padrão da dependência do fundador, em que tudo ainda passa por uma só pessoa.

Como a cultura é codificada

Codificar a cultura significa transformar o que o fundador faz em coisas que a organização faz, para que a cultura não dependa da presença de uma pessoa. Nos termos de Schein, é deslocar deliberadamente o peso dos mecanismos primários (o comportamento do fundador) para os secundários (estruturas, sistemas, rituais, histórias e declarações escritas). Na prática, as organizações usam algumas ferramentas consagradas:

Codificação da cultura representada por princípios escritos reforçados por um carimbo ativo de contratação e decisão

Ferramenta de codificação Mecanismo de Schein em que se baseia O que registra
Valores e princípios escritos Declarações formais de filosofia, credos, estatutos Aquilo que a empresa afirma defender
Critérios de contratação e promoção Critérios de recrutamento, seleção e promoção Quais comportamentos a empresa realmente recompensa
Regras de decisão e delegação de autoridade Sistemas e procedimentos organizacionais Quem decide o quê, para que as decisões não esperem pelo fundador
Onboarding e rituais Ritos e rituais Como as pessoas novas aprendem "como as coisas funcionam aqui"
Histórias de fundação Histórias sobre eventos e pessoas importantes Por que a empresa existe e o que ela não fará
Cadência operacional (reuniões, revisões, métricas) O que os líderes acompanham e medem O que recebe atenção regular sem o fundador pedir

Alguns cuidados decorrem da pesquisa.

Escrever não é o mesmo que incorporar. Os valores declarados são o nível do meio do modelo de Schein. Se os mecanismos primários (recompensas, promoções, reações em crises) contradizem o documento, as pessoas seguem os mecanismos.

Codifique o que é verdadeiro, não o que é aspiracional. Como as premissas básicas são inconscientes, fazê-las emergir exige um trabalho deliberado, e o fundador raramente é a melhor pessoa para descrever as próprias.

Passe também os mecanismos primários. Os seis mecanismos primários são coisas que os líderes fazem. A cultura só é transferida se a camada seguinte de líderes realmente assumir a atenção, a resposta a crises, a alocação de recursos, o exemplo, as recompensas e as decisões de contratação.

Espere um custo em mudanças bruscas. A conclusão do SPEC de que as trocas de blueprint desestabilizavam sugere que mudanças deliberadas e graduais são mais seguras do que reinvenções. Esse é um dos motivos pelos quais institucionalizar um negócio costuma ser apresentado como um processo de vários anos.

Para saber mais sobre como a cultura é desenhada e sustentada para além de um fundador, veja arquitetura da cultura e como construir uma cultura que escala. O lado estrutural da mesma transição é tratado em profissionalizar um negócio, e o lado da passagem de liderança em planejamento sucessório.

Fatos Principais: O fundador como guardião da cultura

  • A tese central de Schein, apresentada em Organizational Culture and Leadership, é que os fundadores impõem a um grupo suas crenças, valores e premissas, e, se a organização tem sucesso, elas passam a ser tidas como óbvias e nasce uma cultura.
  • Os três níveis de cultura de Schein são artefatos, valores declarados e premissas básicas subjacentes, segundo a Culture Partners.
  • Schein lista seis mecanismos primários de incorporação (atenção, reações a crises, alocação de recursos, exemplo, recompensas e status, recrutamento e afastamento) e seis mecanismos secundários de reforço (estrutura, sistemas, rituais, espaço físico, histórias, declarações formais).
  • O Stanford Project on Emerging Companies acompanha 167 startups do Vale do Silício desde 1994 e identificou cinco blueprints de fundadores: engenharia (31%), estrela (8%), comprometimento (7%), burocracia (5%) e autocracia (3%), com 46% sem se encaixar bem em nenhum.
  • Baron e Hannan relatam na California Management Review que as empresas que mudaram o blueprint inicial pagaram um preço em maior rotatividade e pior desempenho.
  • Schein observa que os mecanismos secundários podem se tornar primários à medida que a organização amadurece, e é assim que a cultura passa de "o fundador faz isto" para "a empresa faz isto".

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Brian Tr

Brian Tr

Co-Founder & COO

Brian Tr is Co-Founder and COO of Rework, with 12+ years in B2B go-to-market and operations. Brian scaled Rework from 0 to 10,000+ B2B customers across CRM and productivity tools. Brian writes for founders and owner-CEOs: startup fundamentals, founder-led and family businesses, partnerships, and how SaaS, marketplace, AI and EdTech companies grow.